20 ºC 31 ºC Rio de Janeiro
(21) 2542-2132 ouvinterj@band.com.br (21) 99623-6060
Assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes completa um mês - Editoriais - Band News FM
Plantão

Especial

Texto:
+
-

Assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes completa um mês

Mantidas sob sigilo, as investigações avançaram, segundo as autoridades que participam do inquérito

00:00 / 00:00

Marielle foi a quinta vereadora mais votada nas últimas eleições (Foto: Divulgação)

Mensagens coloridas em um muro branco chamam atenção de quem passa pelo cruzamento das ruas Joaquim Palhares e João Paulo Primeiro, no Estácio, Zona Norte do Rio. Em cada frase estampada está presente o relato dos que pedem justiça para Marielle Franco e Anderson Gomes.

No local, há um mês, na noite do dia 14 de março, a vereadora do PSOL e o motorista dela foram assassinados. A parlamentar deixava um evento com jovens negras, no bairro vizinho da Lapa, quando foi surpreendida por pelo menos nove disparos. Quatro a acertaram e outros três atingiram Anderson.

Longe das câmeras de segurança da região, pelo menos dois criminosos cometeram o que milhares de pessoas classificam como um "atentado à democracia" contra a quinta vereadora mais votada nas últimas eleições para a Câmara Municipal com mais de 46 mil votos.

Atos e protestos ao redor do mundo marcaram as quatro semanas que se passaram depois do crime. Para Anielle Silva, irmã da vereadora, fazer reverberar o discurso da parlamentar é uma obrigação.

"Mais do que nunca, a gente tem que manter, porque são dias tenebrosos, dias difíceis na política que a gente tem vivido e quanto mais debates, quanto mais atos a gente puder fazer eu acho que é muito importante. Nesse momento, o que a gente puder fazer para levar adiante, tem que levar”, afirma Anielle Silva.

A mulher de Marielle, Mônica Benício, vem sendo também uma das vozes mais ativas nos atos em memória das vítimas. Na Justiça, ao lado de Anielle, ela conseguiu a determinação para que empresas removessem da internet parte do conteúdo difamatório publicado depois da morte da vereadora.

Durante a reabertura de uma biblioteca, que agora leva o nome de Marielle Franco, em Manguinhos, favela da Zona Norte carioca, Mônica se dirigiu ao governador Luiz Fernando Pezão afirmando que, como chefe de estado, ele é um dos culpados pelo assassinato.

 "Governador, desculpe, mas há sangue nas suas mãos e nas mãos de todos os que estão aqui enquanto o caso da Marielle não for resolvido. A Marielle levantava bandeiras importantes. Tentaram matar uma mulher e ressuscitaram uma esperança. A Marielle vive e vai continuar lutando”, confronta Mônica Benício.

VEJA MAIS

Marielle pode ser incluída em livro de heróis da Pátria

Atos marcam um mês da morte de Marielle

O crime fez também outra vítima: Anderson Pedro Gomes. O motorista trabalhava com Marielle há apenas dois meses substituindo um colega que estava de licença médica. Entre amigos e familiares, ele era definido como uma pessoa calma, querida por todos, além de um ótimo pai e marido.

A mulher dele, Agatha Arnaus Reis, conta que o último mês foi um misto de emoções para ela. Apesar da tristeza de perder o marido, Agatha recebeu a notícia de que o pequeno Arthur, que completa dois anos em maio, poderia iniciar um tratamento hormonal. Por causa de uma má-formação no abdômen, o filho do casal precisou passar por três cirurgias que dificultaram o desenvolvimento do menino.


"Eu acho que foi o mês mais louco da minha vida de coisas ruins e boas. Ruim porque eu perdi a pessoa que eu escolhi para viver junto, que era mais que meu marido, era meu amigo, sempre do meu lado. E boa porque soube do diagnóstico que a gente esperava para o nosso filho”, diz a esposa do motorista Anderson.

Mãe e filho estão na casa de Júlia Arnaus, irmã de Agatha, esperando o momento em que voltar para onde moravam com Anderson não traga más lembranças.

"Conversando com a minha irmã eu falei que ele era um cara muito grande, o Anderson era um cara que todo mundo gostava. E se tava escrito pra ser assim, eu acho que estava escrito para estar com ela (Marielle), pra ele ter essa visibilidade, pra ele não ser um cara esquecido, porque ele era muito importante pra gente", conta a cunhada de Anderson.

Mantidas sob sigilo, as investigações avançaram, segundo as autoridades que participam do inquérito. Porém, a Polícia encontra dificuldades nos meios utilizados para solucionar o crime. Quatro das 10 câmeras de segurança instaladas no trajeto feito por Marielle e Anderson estavam desativadas.

As imagens que puderam ser analisadas indicaram aos investigadores que um segundo carro teria sido usado na ação criminosa, dando cobertura aos bandidos responsáveis pelas mortes. Um veículo chegou a ser apreendido em Ubá, na Zona da Mata Mineira, mas a Polícia descartou o uso dele no crime.

A principal linha seguida pela Divisão de Homicídios é a de participação de milicianos na morte da parlamentar. As cápsulas recolhidas no local dos assassinatos foram desviadas de um lote adquirido pela Polícia Federal em 2006.

Uma perícia feita nelas revelou fragmentos de digitais. O perito criminal Mauro Ricart explica que os policiais podem usá-los para comparar com possíveis suspeitos.

“Vamos admitir que essa pessoa não tenha sido identificada em algum momento, para uma carteira de identidade ou passaporte, então não tem padrão em lugar nenhum. Assim fica difícil pesquisar genericamente. Agora, você indo em cima de um alvo específico e fazendo o confronto com as digitais, aí é possível”, afirma o perito Mauro Ricart.

Inicialmente o ministro da Segurança, Raul Jungmann, afirmou que o desvio das munições havia acontecido na sede dos Correios da Paraíba, o que foi negado pela estatal. Dias depois, o ministério esclareceu que na verdade o espaço havia sido assaltado em julho do ano passado e no local foram encontradas balas do lote investigado.

Uma assessora de Marielle que estava no carro quando ela foi morta escapou ferida apenas por estilhaços e deixou o Rio de Janeiro por medidas de segurança após prestar depoimentos. Vereadores da Câmara Municipal estão sendo aos poucos intimados a depor.

Os investigadores apuram também se há relação do caso com a morte de um membro da equipe de Marcelo Siciliano, do PHS, um dos parlamentares ouvidos. Carlos Alexandre Pereira era líder comunitário de uma região dominada pela milícia na Taquara, Zona Oeste. Ele foi assassinado no domingo passado.

Por Christiano Pinho, às 13/04/2018 - 09:41

NEWSLETTER
OU